Trabalhos trabalhados

“A luz entrega o mundo; a sombra recebe-o, comunga-o. A sombra é a pintura da fome. A sombra é intimidade, abismo, coração. A luz é toda carne e superfície. Ame a luz quem a puder amar, como dizia Camilo, esse esqueleto dum Anjo, chamuscado e denegrido.”

Teixeira de Pascoaes, Prólogo in Poesia de Teixeira de Pascoaes, Lisboa: Assírio Alvim, 2002.

Desenho sobre, em volta de, insinuar um perfil, um contorno, revelar a sombra. A sombra que gera o universo das histórias, das memórias, das mundivisões. Trabalhos trabalhados reúne uma série de fotografias a que Rui Dias Monteiro regressou, fotografias desenhadas a pastel, impregnadas de gesto. O seu campo imagético constrói-se na procura do (re)conhecimento do seu ser sobre o papel, transfigurando-se em fotografia, desenho ou poesia. Na sua constelação o campo assume um lugar de origem, um sopro de energia criativa que está presente na mais discreta apropriação.
A fotografia conduz-nos para a ideia de coleção. O ato de colecionar tem os seus primeiros objetos conhecidos no Paleolítico, com o homem de Neanderthal, como ação da contemplação sobre o signo que irradia, a reflecção e a redefinição no olhar do colecionador.
Na Pequena História da Fotografia, Walter Benjamin faz referência à semelhança entre a vida e a arte, reflete sobre os limites da fotografia, a fotografia que revela por entre os seus aspetos fisionómicos um mundo de imagens dançantes entre o visível e o oculto, imagens que são o refúgio num “sonhar acordado” e que tornam presente a diferença entre “técnica e magia”.
Em Trabalhos trabalhados à imagem sobrepõe-se uma nova camada, a do desenho. São imagens revisitadas, dotadas de um novo significado que criam um lugar virtual, uma ilusão. A mão é o instrumento do desenho, o desenho e o desenhador constituem-se reciprocamente, num processo de procura e de vivência estética. O desenho transforma, revela, põe a claro o que emerge das sombras.

Junochiro Tanizaki refere que o belo não é uma substância em si, mas sim um desenho, um desenho de sombras, um jogo entre o claro e o escuro gerado pela justaposição de diversas substâncias. Na tradição do Oriente as cores são estratificações da sombra, a poesia Haiku é a revelação de um momento sublime de existência, um ato singular e irrepetível, a presença calada no íntimo. Trabalhos trabalhados são a revelação de um silencioso retiro, a propagação de um segredo que se quer tornar comum.

Cláudia Ramos
15 de junho de 2017

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