Sobre cada erva



Quem escreve este texto, no ano do 11 de Setembro de 2001 completou vinte e quatro anos de idade. Rui Dias Monteiro (n. 1987, Castelo Branco) teria treze ou catorze anos nesse dia tão inquietante como determinante para um novo paradigma do nosso olhar sobre o Mundo. É a partir de acontecimentos que traçam cisões, que abrem clarões e que despoletam movimentos, que marcamos e medimos o tempo. E com os quais procuramos construir um sentido para o tempo em que vivemos. É sintomático, e poder-se-á identificar como marca da nossa contemporaneidade, que o acontecimento que, de algum modo, define a nossa história do presente, seja um evento global. Com esta sinalização também nos demarcamos de gerações anteriores, para as quais o Maio de 68, e no contexto português, o 25 de Abril, viriam a representar momentos charneira. Ainda, e numa geração intermédia, a queda do Muro de Berlim, seria já uma indicação de alguns dos realinhamentos sociais e políticos com que décadas mais tarde nos vimos confrontados. Após o 9/11 surgiram uma série de novas figuras de subjetividade, que têm sido mapeadas, nomeadamente, por Michael Hardt e Antonio Negri. Em Declaration, publicado online em 2012, a dupla de pensadores analisa o espaço cívico, que povoado por uma “multidão” é no essencial composta por os Endividados, os Mediatizados, os “Securitizados” e os Representados.

 Esta exposição propõe um lugar de pensamento, desde logo expresso no título “Sobre cada erva”. E parte do pressuposto que a linguagem e a gramática são formas políticas, sendo através delas que nos fazemos representar. A este enunciado propomos ainda acrescentar uma outra dimensão ao mote que reúne estas imagens: onde se lê (e onde se vê) erva leia-se palavra. Não se trata de uma errata ao título nem tão pouco de uma instrução para uma leitura mais acertada das imagens, mas antes do aderir à ideia de deslocamento e de migração sempre presente na construção de sentido. Este movimento é essencial na representação e apresentação do lugar de que esta série de trabalho se ocupa: uma casa numa aldeia e a área circundante a esta. A paisagem é composta por elementos dos tempos dissonantes do campo e da cidade. O mapeamento deste território desenha-se em torno do espírito do lugar, que encontra raízes no cinema de António Reis (as origens são o objectivo), Glauber Rocha (o épico no quotidiano), Víctor Erice (o enigma das coisas mundanas), Abbas Kiarostami (a construção do espaço social), Pedro Costa (a estranheza/familiaridade do outro) ou Apichatpong Weerasethakul (a convivência do sobrenatural, do sonho e da realidade).
É sobre a história deste lugar a que Rui Dias Monteiro regressa cada vez que volta à casa dos seus avós – que é a sua segunda (ou melhor, a sua primeira) Casa. Uma vez ali, e na posição ambivalente de pertença/afastamento, lida com aquele espaço segundo uma tomada de vista dupla, o que lhe permite estabelecer e provocar encontros entre fronteiras de conhecimentos. Sob este chão, que lhe é comum, encontrou a matéria que emerge no seu trabalho, as palavras que florescem na sua linguagem.

Uma das inspiradoras imagens de pensamento configuradas por Walter Benjamin nas suas teses “Sobre o conceito da História” é a do Angelus Novus, representado num quadro de Klee. Um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para recordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.
É do olhar do anjo da história que o trabalho de Rui Dias Monteiro parece apropriar-se e que nos compele a inscrever as suas imagens no percurso pela história por aquilo que não ficou visível (Maria Gabriela Llansol). Agora apresentadas no Espaço Arte Tranquilidade, as nove fotografias que compõem a exposição “Sobre cada erva”, em conjunto com o livro de artista intitulado “Sob cada erva”, tornam visível o invisível, por força de um heliotropismo secreto. Estas imagens fixam vestígios de gestos e instrumentos de trabalho, traduzindo algumas das subjetividades – suspensão, mobilidade, precariedade, materialidade – da nossa contemporaneidade. Precisamos de recuar para construirmos um sentido para aquilo que vemos. As imagens de Rui Dias Monteiro situam-se nesse intervalo, entre o sobre e o sob da história.


Maria do Mar Fazenda
3 de março de 2014

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