As couves dormem sem manta

A natureza é o que sabemos
sem ter a arte de exprimi-lo
Emily Dickinson



O trabalho que Rui Dias Monteiro (Castelo Branco, 1987) tem vindo a desenvolver regista a paisagem do que lhe é familiar entre o interior e o exterior de uma casa rural, numa relação de proximidade e fascínio pela natureza. Tendo como ponto de partida a sua região natal (Beira Baixa) estas imagens convidam-nos a entrar no perímetro da intimidade do mundo à sua volta.


Não se trata aqui de descrever a imensidão de um terreno ou de definir uma região, mas de relatar detalhes de um território demarcado que tornam aquela paisagem sua. Ao aproxima-se do seu referente RDM convida-nos a entrar nele e a identificar as interferências causadas na paisagem, quer pela intervenção humana, quer pela intervenção de elementos naturais.Nas paisagens apresentadas ocorrem interferências inesperadas, que nos obrigam a focar a atenção num primeiro plano imagem, obstruindo o campo de visão para o que está longe. Esta interrupção acontece por exemplo quando vemos retratado um capot de automóvel que assenta verticalmente junto a uma árvore. Este diálogo inusitado torna o objecto, agora descontextualizado, na personagem central desta paisagem, tanto pela estranheza do acontecimento, como pela sua escala e enquadramento na imagem. Uma outra imagem mostra-nos uma queimada a céu aberto, onde no centro da imagem o fogo arde em tons fortes que contrastam com o verde da paisagem à volta, tornando difícil focar o nosso olhar noutra coisa que não seja o próprio fogo.Da mesma forma nas imagens de interior, RDM isola objectos comuns de regime utilitário através de uma luz rasante que os destaca do fundo, encenando naturalmente naturezas mortas. Estes interiores moldam-se entre o que as sombras escondem e a luz revela, delineando progressivamente formas e cores perante o nosso olhar. Este aproveitamento da luz de forma pictórica e quase barroca, contrasta com a simplicidade dos objectos apresentados, fazendo-nos imaginar uma versão ficcionável dos mesmos e da sua relação com os lugares onde estão.

Este é também um trabalho de memória, a memória da infância, do campo e do que ele suscita nos nossos sentidos - cores, cheiros, sons. A memória de quem já viveu neste lugar e ao qual volta regularmente para o olhar de novo. A memória das pessoas que não estão nas imagens mas que são o motor de todas as acções relatadas e do trabalho diárias no campo, à chuva e ao sol.


Feitas entre o outono e o inverno, estas fotografias captam um diário pessoal de rotinas rurais, com o olhar atento e o afecto de quem conhece por dentro esta paisagem e nela consegue ler as suas alterações diárias. Constrói-se aqui um tempo de ficção à volta da paisagem, do espaço e da família. Um tempo que reflecte a vida no espaço rural, o respeito pelo ritmo dos ciclos naturais, a admiração pela sabedoria da idade e o gosto pelo amarelo dos crisântemos,flor dos Outonos tranquilos.

                                                                                                                         
Filipa Valladares
Abril 2013

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